Intersexo Brasil

Intersexo Brasil · 2026

Direitos Humanos de Pessoas Intersexo no Brasil 2026

Até hoje nossos testemunhos foram unânimes: pessoas intersexo relatam graves abusos e violações de seus direitos humanos no Brasil e no mundo. Esses testemunhos agora estão representados em números convincentes para mudar esta realidade.

Como citar

INTERSEXO BRASIL. Estudo exploratório sobre os direitos humanos de pessoas intersexo no Brasil. Vidda Guzzo e Caia Coelho (ed.); Amiel Vieira e Alex Ballestrin (rev.). Brasília: Rede Brasileira de Pessoas Intersexo, 2026.

role para ler

O estudo

Uma pesquisa exploratória, feita pela comunidade

Concebida, validada e distribuída pela Intersexo Brasil com seu Comitê Consultivo de Pesquisa. Autoaplicada pela internet, com instrumentos adaptados de estudos nacionais e internacionais.

18
integrantes do Comitê Consultivo
organizações, pesquisadoras e ativistas — validação ética e distribuição
71
dias de campo
15 de abril a 26 de junho de 2026
95
perguntas
em 16 blocos temáticos (A–P)
18+
pessoas adultas
consentimento livre e esclarecido, conforme a LGPD

Das respostas à base analítica

A elegibilidade exigia vínculo com o Brasil — nacionalidade ou residência — e autoidentificação em termos amplos: intersexo, pessoa com variações intersexo ou com diferenças nas características sexuais.

Não é uma amostra probabilística. Os achados são descritivos e geradores de hipóteses — mapeiam experiências vividas, não prevalência populacional.

Quem respondeu

De onde vieram as respostas

Pessoas respondentes por estado de residência. Isso reflete quem participou, não uma estimativa da população intersexo brasileira. 18 dos 27 estados estão representados; 9 não tiveram nenhuma resposta.

AL AM AP BA CE ES MG MS PB PE PI PR RJ RS SC SE SP DF
1 → 21 pessoas nenhuma projeção ortográfica

Nove estados não retornaram nenhuma resposta. Esse silêncio também é um achado: mostra onde a comunidade não tem rede para alcançar.

Linguagem e identidade

Elas já disseram como querem ser chamadas

Formas preferidas para nomear as próprias características sexuais. Era possível marcar mais de uma.

Linguagem centrada na pessoa e não patologizante não é gentileza — é o que 86,7% da comunidade pede. Instituições e serviços deveriam adotá-la como padrão. n=75.

Descoberta e diagnóstico

O diagnóstico costuma chegar tarde — e sem explicação

Como as pessoas chegaram a compreender sua variação, e as barreiras no caminho.

A maioria entendeu o próprio corpo por conta própria, não pelo cuidado clínico. E quando houve contato clínico, com frequência ele não deixou um diagnóstico claro. n=71–73.

Quem participou

Uma amostra atravessada por outras marcas

0
têm identidade de gênero diferente do sexo atribuído ao nascer
0
se autodeclaram pretas ou pardas
0
se autodeclaram pessoas com deficiência

Ser intersexo não é uma caixa separada. Atravessa os mesmos corpos que carregam tudo o mais.

Gênero, raça e deficiência autodeclarados. n=73.

Educação, trabalho e renda

Escolaridade alta, salas hostis, renda baixa

0
chegaram ao ensino superior ou além
0
escondiam com frequência ser intersexo na escola
0
pensaram em sair ou mudar de escola por isso

Chegaram até a sala de aula. A sala não abriu espaço para elas.

Renda mensal individual

Segurança alimentar

Quase metade se preocupou com a comida acabar antes de poder repor. 63,4% vivem com até dois salários mínimos ou sem renda própria. A escolaridade não se converteu em segurança. n=72.

Clima na escola em relação à condição intersexo

Nunca Raramente Frequentemente Sempre Não se aplica a mim

A sala de aula raramente foi lugar de se falar abertamente: 63,9% nunca comentaram ser intersexo na escola e quase metade escondia ou disfarçava com frequência. Onde a escola virou tema, virou hostilidade — mais da metade sofreu ou presenciou comentários e condutas negativas, e o uso de banheiros, vestiários e as atividades esportivas concentram as barreiras mais concretas. n=72–73.

0
não exercem trabalho remunerado atualmente. n=72

Clima no ambiente de trabalho em relação à condição intersexo

Nunca Raramente Frequentemente Sempre Não se aplica a mim

No trabalho, a opção mais recorrente foi a discrição: cerca de 40% esconderam ou disfarçaram ser intersexo com frequência ou sempre, e um quarto foi abertamente intersexo raras vezes ou nunca. Some-se a isso a taxa de quem está fora do trabalho remunerado — 45,8% — e o quadro é de inserção produtiva frágil, marcada por invisibilidade defensiva. n=70–72.

Saúde e bem-estar

A saúde mental é avaliada muito abaixo da física

Autoavaliação de saúde. O contraste entre as duas — e não cada barra isolada — é o sinal.

Saúde física

Saúde mental

0
fazem tratamento ou têm diagnóstico de alguma condição crônica de saúde, incluindo saúde mental. n=72

Condições crônicas mais relatadas · entre quem convive com ao menos uma, n=53, múltipla

73,6% avaliam a própria saúde mental como ruim ou nem boa nem ruim; 78,9% convivem com alguma condição crônica. Ansiedade e depressão lideram com folga — dois terços de quem relata alguma condição citam a ansiedade —, um retrato coerente com o peso que a patologização e a vivência intersexo exercem sobre a saúde mental. O questionário também perguntou sobre ideação e tentativa de suicídio; esse dado é tratado com o cuidado devido no relatório completo. n=72.

Intervenções médicas

Decidido na primeira infância, sem a pessoa

Entre as 20 pessoas que passaram por cirurgia para modificar características sexuais: quem consentiu, por idade na primeira operação.

Só os pais Outra pessoa ou ninguém A pessoa e os pais A própria pessoa

70% passaram pela primeira cirurgia antes dos 15 anos; 50% não receberam explicação detalhada sobre o procedimento. Contagens brutas, n=20 — pequenas demais para generalizar, mas o padrão é inequívoco: quanto mais precoce a cirurgia, menor a participação da pessoa na decisão.

Intervenções — panorama

A maioria passou por alguma intervenção médica. A maioria não decidiu a respeito.

0
passaram por ao menos uma intervenção médica para modificar características sexuais — cirurgia, hormonização ou ambas. n=62
72,2
% passaram por tratamento hormonal
27,8
% passaram por cirurgia
70
% dos que operaram tiveram a primeira intervenção antes dos 15 anos · n=20
57,7
% não participaram da decisão da primeira hormonização — consentimento dado só pelos pais ou por terceiros · n=52

Quem deu o consentimento

Primeira cirurgia · n=20

Primeira hormonização · n=52

O que os tratamentos e intervenções afetaram · n=67

Satisfação com os resultados: 29,2% satisfeites contra 30,6% insatisfeites — intervenções feitas para normalizar corpos deixaram mais gente insatisfeita do que satisfeita. Em 6 de cada 10 cirurgias, a decisão foi tomada sem a participação da pessoa.

Acesso à saúde

O serviço existe. O cuidado não chega.

Quase todas as pessoas têm serviço público de saúde por perto. Quase nenhuma consegue alcançar equipes e instalações competentes em cuidado intersexo.

Dificuldades específicas enfrentadas · n=41, múltipla

Áreas em que encontrou dificuldade · n=62, múltipla

As barreiras são de porta de entrada — conseguir atendimento, agendar consulta, solicitar e realizar exames, obter receita de hormônios. E a área mais afetada não é a especializada: é o atendimento médico geral. n=68–72.

Dentro do serviço de saúde

Encaminhadas para o cuidado. Empurradas para fora dele.

O que as pessoas viveram ao usar, ou tentar usar, serviços de saúde como pessoa intersexo. Era possível marcar mais de uma.

Mais da metade deixou de buscar tratamento por medo. Mais de um terço foi pressionade ou obrigade a fazer exame médico ou psicológico. n=67.

Violência

Violência, estigma e discriminação acompanham as pessoas em todos os espaços

As formas mais prevalentes de violência relatadas em cada espaço, em algum momento da vida. Era possível marcar mais de uma.

Espaços públicos n=66

Dentro de casa n=64

Ambientes digitais n=64

0

dizem que essas violências acontecem, ao menos às vezes, por serem pessoas intersexo

Apenas 15,6% nunca sofreram violência dentro de casa.

Direitos e instituições

Politicamente ativas. Institucionalmente desprotegidas.

As pessoas comparecem à política. As instituições não comparecem a elas.

Contato com o governo local n=66

Contato com autoridades federais n=65

Satisfação com iniciativas legislativas n=65

68% nunca procuraram o governo local — e a razão mais citada não é desinteresse, é não se sentir confortável para fazê-lo. No plano federal, 21,5% não sabem como fazer esse contato. Entre quem tentou no município, apenas 18,2% obtiveram resposta.

O que isso exige

Sair da mesa de cirurgia para sentar na mesa da tomada de decisão

Achados descritivos, de uma amostra não probabilística conduzida pela comunidade. Não são prova de causalidade — são um chamado a escutar e a investigar mais.

Um chamado ao movimento

O que encontramos é um mapa. O que vem depois é de todas nós.

Diagnósticos tardios, cirurgias sem consentimento, discriminação na saúde e na educação, quase nenhuma proteção institucional — estes dados existem porque a comunidade os construiu. O passo seguinte não é pessoas intersexo advogando sozinhas. É organizações LGBTQIA+, serviços de saúde e parlamentares tratando estes achados como agenda compartilhada.

Uma agenda compartilhada com

Organizações LGBTQIA+ Serviços de saúde Parlamentares Governo Tomadores de decisão

Veja as nossas recomendações completas aqui.

Leia a pesquisa

Os documentos completos

Este site apresenta os principais achados. Para a metodologia detalhada, os cruzamentos e as análises integradas, consulte os documentos abaixo.

Relatório completoMetodologia, análises integradas e considerações finais Sumário executivoPortuguês · PDF Executive summaryEnglish · PDF

Realização

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Financiamento

Outright International

Comitê Consultivo

Apoio institucional